Ex-presidente da OAS diz que Lula pediu reforma em sítio e detalha encontros

Léo Pinheiro, ex-presidente da construtora OAS, afirmou em interrogatório realizado nesta sexta-feira (9) em Curitiba que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pediu a ele diretamente uma série de reformas em um sítio de Atibaia (SP). As obras são o assunto de um processo da Operação Lava Jato em que Pinheiro e Lula são réus.

A defesa do ex-presidente diz que Pinheiro “preferiu acusar Lula com afirmações mentirosas ao invés de se defender” para tentar um acordo de delação premiada. O ex-executivo da OAS, que cumpre prisão preventiva desde setembro de 2016, confirmou no interrogatório que seus advogados negociam um acordo.

Segundo a denúncia do MPF (Ministério Público Federal), Lula recebeu cerca de R$ 1 milhão em propina por meio de reformas feitas no sítio e pagas pelas construtoras Odebrecht, OAS e Schahin. O dinheiro gasto nas obras teria origem no esquema de corrupção na Petrobras revelado pela Lava Jato, e o MPF cita contratos específicos da estatal em que Lula teria atuado para garantir benefícios à Odebrecht e à OAS.

A defesa de Lula alega que é falsa a vinculação das reformas no sítio com contratos com a Petrobras, e que não há provas dos crimes imputados ao ex-presidente.

Lula será o último interrogado desta ação penal. Seu depoimento está marcado para a próxima quarta-feira (14). Será a primeira vez que o ex-presidente sairá da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, onde está preso desde 7 de abril cumprindo 12 anos e um mês de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex de Guarujá (SP).

Há na Operação Lava Jato de Curitiba, ainda, mais um processo contra Lula, que investiga se ele foi beneficiado pela Odebrecht na compra de um terreno para sediar o Instituto Lula e de um apartamento vizinho ao que ele morava em São Bernardo do Campo (SP). O petista nega as acusações.

Três encontros

Pinheiro disse ter encontrado com Lula em três ocasiões para falar sobre a reforma.

Eu tive com ele e com dona Marisa no sítio e na casa, na residência dele em São Bernardo. Eles que determinaram tudo o que devia ser feito
Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS

Segundo ele, a primeira reunião foi no Instituto Lula, em fevereiro de 2014, onde o ex-presidente teria dito que queria fazer uma reforma em uma sala e em uma cozinha do sítio, além de um reparo em um lago da propriedade.

O segundo encontro teria acontecido uma semana depois, no próprio sítio, junto com Paulo Gordilho, que era diretor da OAS Empreendimentos e também réu neste caso. O processo inclui duas fotos da visita de Pinheiro e Gordilho ao sítio, e Lula aparece nas imagens.

O terceiro, na versão de Pinheiro, aconteceu na residência de Lula e da ex-primeira-dama Marisa Letícia, em São Bernardo do Campo (SP), “duas ou três semanas depois”. Na ocasião, ele e Gordilho teriam mostrado o projeto de reforma do sítio ao casal, e Lula teria autorizado o início dos trabalhos. Marisa morreu em fevereiro de 2017.

“Não podia negar”

Pinheiro disse ter aceitado fazer a reforma porque “não podia negar” o pedido feito, segundo ele, por Lula.

Eu não podia negar pelo nosso relacionamento, pelo que ele fez pela empresa, então eu tive que atender. Não era uma coisa comum
Léo Pinheiro

Segundo Pinheiro, sua relação com Lula vem do começo dos anos 1990, e partiu de uma “estratégia de longo prazo da OAS” para expandir o mercado da empreiteira para fora da Bahia.

“Dentro de um projeto estratégico de longo prazo da organização, a gente vislumbrava a possibilidade do PT vir, até porque já tinha ganho a prefeitura de São Paulo, a prefeita [Luiza] Erundina. Nós fizemos duas obras lá para a prefeitura […] e tivemos que abrir essa relação de uma forma mais próxima”, disse.

Léo Pinheiro diz que foi nessa época que conheceu o ex-presidente Lula e que esteve com ele “muitas vezes”.

“Tive muita orientação dele do ponto de vista da visão estratégica dele. Quando ele assume a Presidência, ele nos ajudou, a mim pessoalmente, porque era eu que tinha uma relação com ele, em diversas coisas: em negócios nossos no exterior; na Petrobras”, relatou.

Pinheiro reafirmou que a OAS tinha uma “conta corrente” de propinas para o PT que era abastecida com recursos oriundos de contratos da empresa com a Petrobras. O empresário classificou as reformas em Atibaia como “despesas extras” que foram incluídas nos “encontros de contas” que a OAS fazia com o partido.

Sigilo sobre obras

Em diversos momentos do interrogatório, Pinheiro destacou que as obras deveriam correr sob sigilo. Este teria sido um dos motivos para que Paulo Gordilho participasse dos trabalhos.

“Ele já tinha conhecimento dos serviços que vínhamos fazendo no tríplex do Guarujá, então preferi que Paulo continuasse para que a coisa não ficasse muito divulgada dentro da organização”, contou.

Segundo Pinheiro, o próprio Lula pediu que os funcionários da OAS na obra não usassem uniformes ou qualquer identificação da empresa, nem mesmo circulassem por Atibaia. O ex-presidente da construtora afirmou ter deslocado uma equipe de Salvador, que ficou morando na propriedade, “exatamente para a gente manter isso em sigilo”.

Fonte: UOL



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