História & Cinema – Identidades em 1954, 1964, 1985 e 2016 Como destruir uma democracia

O seu nome é Petra Costa. Uma referência simbólica a Pedro Pomar. Ícone do PC do B assassinado a tiros na Queda da Lapa, em 16 de dezembro de 1976

Veja como deflagrar um golpe pós-moderno. No Tempo Presente. Da modernidade líquida. A queda de Dilma Rousseff. A prisão de Lula. Ascensão de Jair Bolsonaro

E X P L O S I V O

 

Renato Dias

O seu nome é Petra Costa. Uma referência simbólica a Pedro Pomar. Ícone do PC do B assassinado a tiros na Queda da Lapa, em 16 de dezembro de 1976, São Paulo, capital. Após uma reunião do Comitê Central. Da Legenda da foice e do martelo. Longe das ideias de Elio Gaspari, a sua angulação morde a realidade. Filha de dois ex-militantes clandestinos contra a ditadura civil e militar, que depôs o presidente da República, João Belchior Marques Goulart, um nacional-estatista em sua versão trabalhista, em 1º e 2 de abril de 1964, uma noite que durou 21 anos, nasceu em 1984. À época, o Brasil não podia votar ainda para escolher o inquilino do Palácio do Planalto. A Emenda Dante de Oliveira caiu em 25 de abril daquele ano.

‘Democracia em vertigem,  documentário com a sua impressão digital, mostra como deflagrar um golpe. Pós-moderno. O conceito é utilizado pelo sociólogo português Boaventura de Souza Santos. No Tempo Presente. Da ‘modernidade líquida’, como anota Zygmunt Bauman, sociólogo polonês já morto. Eugênio Aragão, procurador da República aposentado, ex-ministro da Justiça, apontava a participação dos Estados Unidos tanto nas jornadas de junho de 2013, privatizadas pelos conglomerados de comunicação para apontar em direção a Dilma Rousseff, que havia reduzido de 24,5% para 7,5% os juros aplicados pelo sistema financeiro, no Brasil. Um dos mais altos do planeta. A fração hegemônica do capital, explica o sociólogo Jessé Souza.

Além de ter feito uma faxina ética, que afastou ministros & ministros, derrotou pela oitava vez consecutiva, nas urnas eletrônicas, o PSDB. Como assim? Primeiro e segundo turnos de 2002, com Luiz Inácio Lula da Silva. Primeiro e segundo turnos, de 2006, com a reeleição do ex-operário metalúrgico. 2010: primeiro e segundo turnos, com a eleição da ex-guerrilheira urba­na, presa em janeiro de 1970, em São Paulo, torturada, Dilma Vana Rousseff, da VAR-Pal­mares. A Vanguarda Armada Revolucionária Palmares. Organização de luta armada. De Carlos Franklin da Paixão Araújo, Carlos Lamarca, Antonio Roberto Espinosa, Athos Magno Costa e Silva e Rafton Nascimento. Reeleita, em 2014, com duas surras nos tucanos. 1º e 2º turnos.

Senador da República, neto de Tancredo Neves, ex-ministro da Justiça de Getúlio Vargas, ex-primeiro-ministro no Parlamentarismo de 1961 a 1963, o ‘mimado’ Aécio Neves [MG] não aceitou o veredicto das urnas. O cardeal tucano exigiu a recontagem dos votos, lança suspeita sob uma suposta e fantasiosa fraude eleitoral, entra com uma ação judicial para cassar a chapa vencedora, celebra aliança com Eduardo Cunha, magoado com a perda de cargos no Governo Federal, colabora com o estabelecimento de pautas-bomba e impede a manu­ten­ção da governabilidade. Em um presidencialismo de coalizão. Com excessiva fragmentação par­ti­dária. Aécio Neves, o bom garoto das baladas, nunca ‘elaborou’ [Psicanálise] a sua derrota eleitoral.

Como a cadela do fascismo nunca sai do cio, as classes médias, que a filósofa da USP Marilena Chauí classifica-as como fascistas, saem às ruas. Com camisas da seleção brasileira. A narrativa era de combate à corrupção. Seletiva. O MBL posa ao lado de Eduardo Cunha, que acaba cassado e para na cadeia. Antes, porém, o marido da jornalista Cláudia Cruz, ex-TV Globo, abre o processo de impeachment. Por absoluta chantagem. O dia 17 de abril celebra a morte da frágil democracia e do imaturo Estado de Direito no Brasil formatado com a Constituição Federal promulgada em 5 de outubro de 1988. Deus tenha misericórdia dessa nação, proclama o presidente da Câmara dos Deputados. Em memória de Carlos Alberto Brilhante Ustra.

O terror de Dilma Rousseff

É o que grita, ao microfone, na sessão especial, um obscuro e inexpressivo membro do baixo cle­ro do Parlamento, capitão reformado, aposentado aos 33 anos de idade, acusado e com o inquérito arquivado de preparar um ato terrorista, em 1986, como denunciara a Revista Veja. É Jair Messias Bolsonaro. Um ‘neoconvertido’ à liturgia evangélica e a uma ‘nova política’. De­pois de 30 anos de mandatos. A sessão especial do Senado sepulta o mandato obtido nas ur­nas de Dilma Rousseff, sem crime de responsabilidade. Uma conspiração ampla. Com o Palácio do Jaburu, o Congresso Nacional, o STF, o PIB do Brasil, como a Fiesp, as bancadas do Boi, da Bala e da Bíblia, os conglomerados de comunicação, controlados por nove famílias, em um país com 209 milhões de habitantes. Além da participação do Departamento de Estado, dos EUA.

Michel Temer assume o poder. Joesley Batista, da JBS, divulga um áudio explosivo. O líder do MDB determina a manutenção do pagamento de propina a Eduardo Cunha, na cadeia. “Tem que manter isso, viu?”, pontua o presidente da República. Rodrigo Rocha Loures, assessor especial do Palácio do Planalto, é flagrado ao correr com uma mala com R$ 500 mil. Sérgio Machado havia vazado uma conversa não republicana com o senador da República Romero Jucá [MDB]. Um acordo nacional, com Michel Temer, o Supremo Tribunal Federal e com tudo, dis­para. Dois pedidos de afastamento do inquilino do Palácio do Planalto são votados na Câ­ma­ra dos Deputados. Michel Temer e os seus aliados derrubam as tentativas de afastá-lo.

 

A Operação Lava Jato estava a pleno vapor. O juiz de Direito da 13ª Vara de Curitiba, Sérgio Moro, em tabelinha, jargão usado no mundo do futebol, com Deltan Dallagnoll, procurador da República, caça indícios frágeis para acusar Luiz Inácio Lula da Silva. Primeiro, de ter obtido um tríplex, em Guarujá, São Paulo. O imóvel era da CEF. O ex-sindicalista nunca possuiu um contrato de gaveta, sequer uma escritura, mesmo registro, efetuou a posse ou ocupação do apartamento. Muito menos fez uma reforma de R$ 1.250.000,00.  Jamais teria instalado um elevador privativo. Nem morou no local. Depois, Deltan Dallagnoll monta a farsa do ‘Power Point’. Nada mais patético. Sem mesmo ter certeza do fundamento das acusações. De crimes.

Alçado ao alto posto de ‘herói nacional’, símbolo do combate à corrupção, herança do patrimonialismo da Casa Grande & Senzala, Sérgio Moro, que instruíra a acusação, indicara procuradores para interrogar Luz Inácio Lula da Silva, exigira a preservação da imagem de Fernando Henrique Cardoso, o ‘príncipe da privataria’, condena o ‘band leader’ petista, que aparecia em primeiro lugar em múltiplos cenários simulados para a eleição presidencial de 2018. Impedido de tomar posse no cargo de Ministro-Chefe da Casa Civil, após um vazamento ilegal, sem autorização do STF, por uma conversa com a  então presidente da República Dilma Rousseff, por uma sentença de Gilmar Mendes, operador do Direito com vínculos históricos com o tucanato, é condenado. Em primeira instância. Depois, em segunda instância.

Longe de O Mecanismo

A cineasta Petra Costa mostra os bastidores de abril de 2018. O comandante do Exército, gene­ral Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, às vésperas do julgamento do HC [Habeas Corpus] de Luiz Inácio Lula da Silva, ameaça, nas redes sociais, e afirma repudiar o que rotula como im­pu­nidade. Amedrontado, o STF agacha-se para o rumor de botas. Ao humor dos quartéis. Sérgio Moro determina a sua prisão. Como em 1978, 1979 e 1980, ano em que ficou preso no Dops [SP], refugia-se no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Luiz Inácio Lula da Silva afere a pressão arterial. É abraçado pela deputada federal do Psol, ex-prefeita de São Paulo, Luiza Erundina. A PF ameaça invadir. O que provocaria um banho de sangue. É que milhares de pessoas cercavam a entrada do prédio da entidade sindical. O condenado se entrega. Jair Bolsonaro, com um tsunami de Fake News, é eleito. Sérgio Moro é nomeado Ministro da Justiça. Com a promessa pública de ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, STF. O documentário é um soco no estômago. Narrativa com âncora na verdade. Imagens explosivas para a História.

– O resto é ‘mimimi’ de Elio Gaspari.




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