Quadrilha que aplicava golpe do cartão de crédito em idosos é presa

ANA MARIA CAMPOS

Policiais civis da Coordenação de Combate ao Crime Organizado, ao Crime contra a Administração Pública e contra a Ordem Tributária (CECOR) estão nas ruas nesta manhã (01/03) para prender os membros de uma organização criminosa que aplica golpes em idosos para clonagem de cartões de crédito. É a Operação Luthor, nome que remete ao Deus da trapaça ou da mentira, da mitologia nórdica.

O esquema funciona de forma a enganar as pessoas com todos os detalhes planejados. O telefone toca depois do horário de expediente bancário. Um senhor ou senhora, em geral com mais de 65 anos, aposentado, com renda financeira elevada, morador de área nobre de Brasília, atende e ouve um alerta de uma pessoa que se identifica como funcionário da central de segurança da operadora do cartão de crédito. Os dados pessoais são confirmados e há a informação de que uma compra foi realizada indevidamente. A seguir, tirando proveito de uma situação de surpresa e fragilidade emocional, começa o golpe.

A atendente passa a ligação para vários ramais e realiza o suposto bloqueio do cartão que teria sido usado indevidamente. De ramal em ramal, a pessoa é orientada a ligar para uma outra central. O telefone, no entanto, é direcionado para os próprios golpistas. Nesse meio tempo, o cliente digita a senha do cartão. A central, então, instrui o idoso a procurar o gerente do banco para formalizar a queixa. Mas, devido ao horário, isso só será possível no dia seguinte.

Serviço de delivery

Enquanto a vítima do golpe pensa e se preocupa com as compras que poderão ser feitas até lá, é oferecido um serviço de delivery. O idoso é orientado a picotar o cartão, colocar num envelope e entregar a um motoboy que irá em casa buscar o que sobrou do dinheiro de plástico. O cliente recebe também a recomendação de escrever uma carta à loja onde teria sido realizada a compra indevidamente. Esse procedimento serve apenas para distrair a vítima.

Tudo parece normal, um serviço de segurança bancária. Mas o que os criminosos querem, o chip e a senha do cartão, está garantido. Com isso, a quadrilha fabrica um novo cartão e pode ir às lojas para gastar ou a um terminal de autoatendimento para sacar dinheiro. Os clientes  com poder aquisitivo mais alto são escolhidos para evitar problemas com os limites de gaistos.

Mais de 80 vítimas

Esse é o modus operandi de uma organização criminosa com pelo menos 14 integrantes que vinha atuando no Distrito Federal. Foram meses de investigação da Divisão de Repressão ao Crime Organizado (Draco), sob a responsabilidade do delegado Adriano Valente.  Cerca de 80 vítimas registraram ocorrência. Mas o prejuízo pode ser muito maior porque muitos idosos se envergonham de, com tanta experiência de vida, ainda terem sido enganados dessa forma. Mas não é difícil cair no golpe. Os criminosos são estelionatários e ainda têm acesso a bancos de dados comprados clandestinamente com informações pessoais sigilosas.

A reportagem do Correio conversou com uma vítima que só não teve prejuízo no bolso porque o filho dela percebeu a fraude e cancelou o cartão de crédito a tempo. A aposentada, moradora da Asa Sul, ficou insegura e abalada com a situação. Ela relatou que chegou a entregar o cartão a um motoboy que bateu na sua casa. “Ele chegou de cara limpa para buscar o cartão. Eu senti que poderia estar algo errado, mas todas as pessoas no telefone eram muito convincentes. Tentei ligar para o gerente do meu banco, mas uma mulher atendeu dizendo que me ajudaria e que estava tudo certo”, conta. “Disseram que o serviço de busca do cartão se chamava Anjos”, detalhou. Ela registrou ocorrência na 5ª DP, na área central de Brasília.

Desdobramento da Operação Panoptes

O esquema de golpes foi descoberto durante as investigações da Operação Panoptes, que desbaratou uma organização voltada a fraudes em concursos. Um dos suspeitos da Panoptes, José Augusto Moreira dos Amjos, é apontado como o líder dessa quadrilha. Ele teve a prisão preventiva decretada pela Justiça na Operação Luthor.

Bebidas, eletrônicos e celulares

Durante a investigação,  suspeitos foram identificados por vendedores de lojas onde fiizeram compras com os cartões clonados. Eles priorizavam gastos com telefones celulares, eletrônicos e bebidas. Em seguida, revendiam esses produtos. Há registros de compras que chegam a R$ 30 mil num só dia. Os criminosos vão responder por estelionato, furto mediante fraude, lavagem de dinheiro, receptação, entre outros crimes.

Os criminosos torravam dinheiro das vítimas com celulares, principalmente iPhones, que eram revendidos a R$ 3 mil, abaixo do preço de mercado. Numa operação, eles compraram cem caixas do energéticos Red Bull.

Uma senhora de 70 anos relatou ter entregado o cartão ao motoboy pensando que seria inutilizado e, logo depois, recebeu uma mensagem do banco com registro de uma compra no valoe de R$ 10 mil.


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