Venezuela: vereador teria morrido afogado sob tortura, afirma ex-procuradora

A versão do governo da Venezuela sobre o suposto suicídio do vereador de oposição Fernando Albán, que morreu na segunda-feira no prédio do Serviço de Inteligência Bolivariana (Sebin), vem sendo cada vez mais contestada. Enquanto autoridades se embaralhavam para explicar as condições em que a morte do político ocorreu, uma ex-procuradora-geral no exílio afirma que Albán foi afogado sob tortura.

O procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab, deu na quarta-feira uma entrevista coletiva na qual afirmou que Albán “correu para uma janela panorâmica num corredor e se atirou” do décimo andar da sede do Sebin.

Anteriormente, Saab afirmara que o vereador oposicionista pedira permissão para ir ao banheiro e se jogou pela janela. Já o ministro do Interior, Nestor Reverol, escrevera no Twitter que Albán estava na “sala de espera do Sebin quando se jogou por uma janela das instalações e caiu no vazio, o que causou a sua morte”.

Na coletiva, porém, Saab mudou sua versão inicial.

— Eu nunca disse que ele se jogou do banheiro — afirmou, contradizendo suas palavras de dois dias antes.

O vereador foi detido sem ordem judicial na última sexta-feira, quando chegava ao aeroporto de Caracas, vindo de Nova York. Albán estava sendo investigado por “atos desestabilizadores comandados do estrangeiro”, afirmou Reverol em seu tuíte.

De acordo com o procurador-geral, a autópsia determinou como causa da morte “traumatismo craniano e facial severo, choque por massiva perda de sangue, e traumatismos em tórax, abdômen e pelve”. Não teriam sido detectados sinais de maus tratos antes da queda, disse Saab.

— Essa história de que o afogaram, asfixiaram, de que já estava morto antes de cair não passa de uma mentira deslavada.

A oposição, no entanto, responsabiliza o governo pela morte do político. Entre os que afirmam que Albán foi assassinado está a antecessora de Saab no cargo, a ex-promotora Luisa Ortega — uma colaboradora próxima de Hugo Chávez e que depois divergiu do governo de seu sucessor, Nicolás Maduro.

— Tenho informações de dentro do governo de que ele morreu afogado, pois estava sendo torturado com um saco — disse Luisa.

Sua afirmação corrobora a dos colegas do vereador, que sustentam que ele foi torturado desde domingo à noite por agentes que queriam forçá-lo a gravar um vídeo contra o líder do partido Primeiro Justiça, Julio Borges.

Alguns observadores indicam que a autópsia está no centro da polêmica, entre outros pontos porque “um dos médicos que assinam o laudo, Arnoldo Pérez, trabalha em serviços comunitários e se define como um revolucionário fervoroso em suas redes sociais e um feroz crítico dos ‘fascistas’ da oposição”, diz o jornal espanhol “El Mundo”. O exame teria sido adulterado por ordem de Reverol, denunciou na televisão William Jiménez, ex-coordenador de investigações do necrotério da capital venezuelana.

— Havia água nos pulmões, mas o laudo foi modificado para apontar outra coisa — afirmou Jiménez.

Enquanto isso, o jornal governista “Vea” afirmou que Albán teria uma “vida oculta”, pois teriam sido envontrados vídeos pornográficos em seu celular. A reportagem diz ainda que o Sebin estava investigando “práticas de pedofilia”.

— Foram achados 2.084 vídeos no celular de Albán, que podem explicar por que ele decidiu tirar a própria vida — afirmou Saab. — Ele se suicidou por temer cair no descrédito público.

A oposição, o Parlamento e boa parte da comunidade internacional — incluindo a ONU e a União Europeia — exigiram uma investigação “externa e independente” do caso. Mas o ex-premier espanhol José Luís Zapatero, mediador das negociações entre os opositores e o governo, pediu que “sejam respeitadas” as instituições venezuelanas, e que as conclusões do Ministério Público se apresentem “razoáveis, objetivas e verificáveis”.

Fonte: O Globo




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